segunda-feira, 11 de julho de 2022

PREPARAÇÃO PARA MORTE

 

PREPARAÇÃO PARA MORTE

PONTO III

Consideremos agora o estado infeliz de uma alma que cai no desagrado de Deus. Vive separado de seu Sumo Bem, que é Deus (cf. Is 59,2); de sorte que ela já não é de Deus, nem Deus já é seu (cf. Os 1,9). E não somente não a considera como sua, mas detesta-a e a condena ao Inferno. 

O Senhor não detesta a nenhuma das criaturas, nem às feras, nem os répteis, nem ao mais vil dos insetos (cf. Sb 2,25). Entretanto, não pode deixar de aborrecer o pecador (cf. SI 5,7); porque, sendo impossível que não odeie o pecado, inimigo absolutamente contrário à sua divina vontade, deve necessariamente aborrecer o pecador que se conserva unido à vontade do pecado (cf. Sb 14,9).

Ó meu Deus! Se alguém tem por inimigo a um rei do mundo, não pode repousar tranquilo, receando a cada a morte. E aquele que for inimigo de Deus, como pode ter paz? Da ira de um rei se pode escapar, ocultando-se ou emigrando para outro país; mas quem pode livrar-se das mãos de Deus? "Senhor", dizia Davi, "se subir ao céu, ali estás, se descer ao inferno, estás ali presente (...) A todo e qualquer lugar aonde vá, tua mão alcançar-me-á" (cf. SI 138,8-10). 

Desgraçados Pecadores! São amaldiçoados por Deus, amaldiçoados pelos anjos, amaldiçoados pelos santos, e ainda amaldiçoados na Terra, todos os dias, pelos sacerdotes religiosos que, ao recitar o ofício divino, proferem a maldição (cf. SI 118,2). 

Além disso, o desafeto de Deus traz consigo a perda de todos os merecimentos. Ainda que uma pessoa tivesse merecido tanto como um São Paulo Eremita, que viveu 98 anos numa gruta; tanto como um São Francisco Xavier, que conquistou para Deus dez milhões de almas; tanto como São Paulo, que por si só alcançou - Segundo afirma São Jerônimo - mais merecimentos que todos os outros apóstolos, se tal pessoa cometesse um só pecado mortal, perderia tudo (cf. Ez 18,24), tão grande é a ruína que produz a queda no desagrado do Senhor! De filho de Deus, o pecador converte-se em escravo de Satanás; de amigo predileto torna-se odioso inimigo; de herdeiro da glória, em condenado do Inferno. 

Dizia São Francisco de Sales que, se os anjos pudessem chorar, certamente chorariam de compaixão ao verem desdita de uma alma que comete um

pecado mortal e perde a graça divina. Entretanto, a maior tristeza é que os anjos chorariam, se pudessem chorar, e o pecador não chora. Aquele que perde um cavalo, uma ovelha - diz Santo Agostinho - já não come, já não descansa, mas chora e lastima-se. Mas, se perde a graça de Deus, come, dorme e não se queixa!

Preparação Para Morte de Santo Afonso Maria de Ligório, Considerações XIX, Do Bem Inefável Que é a Graça Divina e do Grande Mal Que é a Inimizade Com Deus

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